terça-feira, 24 de janeiro de 2012

Vais ou ficas?

Todos temos o nosso pequeno Mundo. É nele que aprendemos a ser e a viver. É nele que está a segurança. É nele que a nossa vida se assume. Cada um dos nossos pequenos Mundos tem muitas particularidades. Cada um tem o seu direito de ser. Todos constituem O Mundo.  Mas O Mundo é grande. Muito Grande! 
Gostava de poder passear. Só passear. Não quero pensar onde, nem com quem, nem em que moldes. Só gostava de passear. A aventura de me enfiar num meio de transporte para um sítio totalmente desconhecido é fascinante. É verdade que é moda dizer que se quer viajar. Mas esse viajar não me interessa. Eu não quero hotéis nem piscinas nem discotecas. Quero conhecer o desconhecido, quero ver os pequenos Mundos para acrescentar ao meu Mundo. Tenho sede de transformar o meu Mundo num Mundo gigante! Quero viver vários pequenos Mundos. 
Um dia fui a um sitio diferente. Mesmo diferente. E gostei. Gostei da vida deles. Gostei de olhar o Mundo com os olhos deles. O chão do aeroporto era diferente; todo ele era alcatifado, sem falha. Era quente, mas sujo também. O ar era morno, húmido e porco - quase dava para sentir o fumo a entrar-nos pelos pulmões adentro. Era bom. A comida era vegetariana, o que poderia ser um problema para mim, visto que adoro um bom bife. Mas não, passei 10 dias sem carne e sem sentir qualquer falta dela. Os quartos eram porcos, com mosquitos e com as casas de banho por lavar. Penso que nem os lençóis mudavam entre cada hóspede. Senti-me verdadeiro. Sabia que não gostava daquilo, que muito do que se estava a passar à minha volta ia contra todos os princípios do pequeno Mundo onde tinha crescido. Mas este também era o pequeno Mundo de muitas pessoas e eu queria saber como se tirava dali o prazer de viver. Foi preciso abrir o espírito. Não foi fácil. Mas foi bom. Senti-me maior, mais vivido, mais conhecedor. 
Eis que surge um novo vício: depois destas experiências há uma sede que se apodera de nós. Uma sede de mais e mais e mais. Queremos o nosso Mundo a crescer infinitamente. Queremos viver mais, ver mais, sentir mais. Principalmente, queremos tudo isto diferente do pequeno Mundo onde crescemos. E aqui os problemas começam. Ou somos ricos, ou somos muito corajosos. A primeira não me interessa e a segunda tão depressa se apodera de nós, como nos deixa sós à beira da estrada. A verdade é que eu gostava de partir, sinto aquela inquietação interna. Aquela vontade demolidora de me lançar ao Mundo que me deixa o estômago às voltas. Quero esquecer a faculdade, o futuro, as pressões e o dinheiro. Só quero ir. Passados uns anos volto mais pessoa, mais vivido e mais feliz. Volto com o meu Mundo gigante às costas - cheio de visões diferentes e de sensações diferentes. Posso viver o meu pequeno Mundo através do meu Mundo gigante!! Mas tenho medo. Vou ter saudades, vou estar desconfortável, posso adoecer, posso ficar pobre, posso morrer, posso não ter ninguém com quem partilhar, posso passar fome, posso sentir-me só. Posso nunca conseguir voltar para ver o meu pequeno Mundo através do meu Mundo gigante. Pode não resultar.

Pensar faz mal.

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