quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

As pessoas

Hoje o meu avô veio ter comigo, deu-me um papel e disse "lê isso". Eu peguei no papel que dizia o seguinte:

"As coisas acontecem, sucedem e a gente aproveita ou não.Há um jogo de meninos que, em Portugal, se chama cama de gato: os meninos atam um cordel em círculo, depois fazem assim com a mão, vem outro e faz uma complicação qualquer, mete o dedo e faz outra complicação, vem outro ainda e quando aos dedos faz assim e tira, e forma outra figura. Este jogo chama-se cama de gato. Então, eu acho que na vida o que há, é um jogo perpétuo de crianças com a cama de gato, que a vida vem de vez em quando e apresenta-nos um problema, olhamos e vemos como é que havemos de tirar, depois metemos os dedos, fazemos assim e sai outra coisa.  É que toda a nossa habilidade é tornar a ser crianças para ver como sai a cama de gato."

Prof. Agostinho da Silva

Não há maior verdade do que admitir que o que a vida nos dá é resultado daquilo que fazemos dela. Mas, como na cama de gato, a maior parte das vezes não sabemos qual a complicação que nos surge após a descomplicação anterior.

Obrigado avô.

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

O Real Sonho.

Há umas noites atrás sonhei. Sonhei duas vezes numa única noite. Ou melhor, sonhei uma vez durante a noite e sonhei a segunda já de manhã. 
Acordei assustado com um pesadelo daqueles que nos deixam o coração aos pulos, daqueles que metem medo. Olhei para o quarto em redor e reparei num pequeno fio de luz que se esgueirava entre a portada e a parede. Estava confortavelmente quente e sentia o frio fora dos lençóis. Decidi deixar-me ficar a ver no que aquilo dava; "pode ser que volte a adormecer", pensei eu... E voltei mesmo. Mal eu sabia da reviravolta que ia acontecer.
Quando dei por mim estava na Quinta do Fojo rodeado de gente e cães, muitos cães, alguns que conhecia, outros nem tanto. Havia uma grande confusão - confusão de festa, confusão boa, feliz - e nem me lembro bem o que estava a acontecer como é típico dos sonhos. Eis quando o meu primo entre numa pequena guerrilha amistosa comigo e começa a correr atrás de mim. Depois de corridos uns quantos metros, atravesso a janela virada para a Serra e, após um pequeno empurrão com os pés, dou por mim a voar com uma suavidade e fluidez incrivelmente reais. Estava a voar, eu estava realmente a voar! Sentia o ar na cara e a brisa a percorrer-me os cabelos. Via tudo cá de cima e nada me conseguia para. Estava livre como nunca e sentia aquela felicidade que nos enche o peito ao ponto de rebentar! Só me apetecia gritar toda a alegria que me corria nas veias! Lá de baixo ainda oiço o meu primo gritar "Fogo assim não vale!" ao que eu respondo "Este sonho é tão bom! Não quero que acabe nunca!". No momento da minha resposta apercebo-me de que realmente estou a sonhar. O mais fantástico disto tudo é que obriguei toda a minha consciência a memorizar todos e quaisquer pormenores daquela situação. Sabia que aquilo ia acabar e, portanto, disse a mim mesmo: "Vou tornar isto realidade". 
De repente acordei. Tão satisfeito com este sonho como assustado com o anterior. Nunca me tinha acontecido. Foi delicioso voar. Eu senti o voar. Acho que quando me apercebi que era realmente um sonho, ainda estava a sonhar e isso permitiu-me fazer um esforço maior para registar o que se passava. Senti um sonho sabendo que este ia acabar. Foi efémero mas real. Não há uma lembrança nublada do sonho, há uma recordação. Pergunto-me o seguinte: se não consigo encontrar diferenças entre a minha recordação deste sonho e a recordação da minha última viagem para Lisboa, porque é que uma delas é mais real que a outra? Não é! Eu não quero que seja, não sinto que seja, nem é! Foi um sonho real, porque o vivi!

Eu voei!

quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

Falar.

Ontem falámos, hoje falámos e amanha falaremos.
Entendemo-nos.
As pessoas mudam.
Ás vezes deixam de se entender.
Ás vezes entendem-se na mudança.
Tenho de receio de um dia não a entender.
Tenho receio que um dia ela não me entenda.
Quero mudar com ela.
Quero entendê-la.
Quero que me entenda.
Espero que nos entendamos sempre.

terça-feira, 24 de janeiro de 2012

Vais ou ficas?

Todos temos o nosso pequeno Mundo. É nele que aprendemos a ser e a viver. É nele que está a segurança. É nele que a nossa vida se assume. Cada um dos nossos pequenos Mundos tem muitas particularidades. Cada um tem o seu direito de ser. Todos constituem O Mundo.  Mas O Mundo é grande. Muito Grande! 
Gostava de poder passear. Só passear. Não quero pensar onde, nem com quem, nem em que moldes. Só gostava de passear. A aventura de me enfiar num meio de transporte para um sítio totalmente desconhecido é fascinante. É verdade que é moda dizer que se quer viajar. Mas esse viajar não me interessa. Eu não quero hotéis nem piscinas nem discotecas. Quero conhecer o desconhecido, quero ver os pequenos Mundos para acrescentar ao meu Mundo. Tenho sede de transformar o meu Mundo num Mundo gigante! Quero viver vários pequenos Mundos. 
Um dia fui a um sitio diferente. Mesmo diferente. E gostei. Gostei da vida deles. Gostei de olhar o Mundo com os olhos deles. O chão do aeroporto era diferente; todo ele era alcatifado, sem falha. Era quente, mas sujo também. O ar era morno, húmido e porco - quase dava para sentir o fumo a entrar-nos pelos pulmões adentro. Era bom. A comida era vegetariana, o que poderia ser um problema para mim, visto que adoro um bom bife. Mas não, passei 10 dias sem carne e sem sentir qualquer falta dela. Os quartos eram porcos, com mosquitos e com as casas de banho por lavar. Penso que nem os lençóis mudavam entre cada hóspede. Senti-me verdadeiro. Sabia que não gostava daquilo, que muito do que se estava a passar à minha volta ia contra todos os princípios do pequeno Mundo onde tinha crescido. Mas este também era o pequeno Mundo de muitas pessoas e eu queria saber como se tirava dali o prazer de viver. Foi preciso abrir o espírito. Não foi fácil. Mas foi bom. Senti-me maior, mais vivido, mais conhecedor. 
Eis que surge um novo vício: depois destas experiências há uma sede que se apodera de nós. Uma sede de mais e mais e mais. Queremos o nosso Mundo a crescer infinitamente. Queremos viver mais, ver mais, sentir mais. Principalmente, queremos tudo isto diferente do pequeno Mundo onde crescemos. E aqui os problemas começam. Ou somos ricos, ou somos muito corajosos. A primeira não me interessa e a segunda tão depressa se apodera de nós, como nos deixa sós à beira da estrada. A verdade é que eu gostava de partir, sinto aquela inquietação interna. Aquela vontade demolidora de me lançar ao Mundo que me deixa o estômago às voltas. Quero esquecer a faculdade, o futuro, as pressões e o dinheiro. Só quero ir. Passados uns anos volto mais pessoa, mais vivido e mais feliz. Volto com o meu Mundo gigante às costas - cheio de visões diferentes e de sensações diferentes. Posso viver o meu pequeno Mundo através do meu Mundo gigante!! Mas tenho medo. Vou ter saudades, vou estar desconfortável, posso adoecer, posso ficar pobre, posso morrer, posso não ter ninguém com quem partilhar, posso passar fome, posso sentir-me só. Posso nunca conseguir voltar para ver o meu pequeno Mundo através do meu Mundo gigante. Pode não resultar.

Pensar faz mal.

sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

Está frio não estava?

Ainda me custa a escrever neste teclado. Está frio, muito frio! Tanto que os meus dedos demonstram alguma relutância em aceder às minhas ordens.
Saí da grande cidade e vim para o campo. A casa é grande e tem muito menos movimento que o pequeno apartamento lá na capital. Entro e sinto os ossos estalar. O escuro engole a beleza que a decoração ostenta - as portadas estão fechadas para evitar intrusos inesperados - e o silêncio suga toda a vida que daqui podia surgir. O cenário é, basicamente, frio! Não obstante, sinto-me em casa. Abro as portadas, acendo as luzes e a mobília mostra-se como a face de uma noiva quando levanta o véu. O tom vermelho e castanho da tijoleira e da madeira contrastam com o branco das paredes envolvendo-me numa sensação acolhedora e espaçosa. Sem perder tempo, acendo três milagrosas acendalhas, coloco três pinhas em cima e, como uma pequena grande cereja no topo do bolo, a lenha assenta na perfeição. De repente, debaixo do amontoado de madeira, começa a surgir uma fraca luz. Estalos ecoam e a luz aumenta. Naquilo que parece um abrir e fechar de olhos, a chama cresce e começa a engolir os enormes troncos que anteriormente pareciam impenetráveis. A luz está mais forte e agora transmite calor, as enormes paredes iluminam-se e começam a cuspir uma energia que outrora não existia. A casa volta a estar viva e sabe bem estar aqui. Deito-me no sofá. Entretanto a minha mãe - minha querida mãe - chega com mais energia, mais calor, mais vida! Passeio-me entre a sala e a cozinha. Conversamos, comemos, cozinhamos e contamos as novidades fazem os nossos pequenos mundos girar - "hoje assaltaram a casa ali do lado, ainda fomos atrás do tipo mas ele fugiu". Foi aqui que cresci, é que que me sinto realmente confortável. Volto à minha infância, aos bons e maus momentos que aqui passei, aqueles que me fizeram quem sou. Volto a casa. Estou feliz. Estou quente!

domingo, 8 de janeiro de 2012

A busca eterna

Há dias falávamos de filhos. Num futuro longínquo claro. Surgiu então a pergunta de "qual seria a tua reacção se o teu filho quisesse ser funcionário da EMEL?". Respondi sem hesitar que seria de o apoiar. Mas realmente é uma profissão mal aceite, mal encarada e, por muitos, quase odiada! Então, como reagiria eu se o meu filho quisesse ser funcionário da EMEL? Ou homem do lixo? Ou empregado doméstico (independentemente do sexo)?
A vida é feita de escolhas... Algumas piores, outras melhores, mas as escolhas estão sempre lá. E aqui não há nada mais simples que um único objectivo final. Por muitas voltas que possamos dar e por muitos argumentos que possamos apresentar, a meta final, ao tomar uma decisão, é a busca da felicidade. Não sejamos hipócritas nem mentirosos, há profissões das quais não gostamos e há decisões que rezamos a Deus, seja ele quem for, para que os nossos filhos não as tomem. No entanto não há nada mais sagrado do que a felicidade. É o nosso Deus mais tangível, a nossa busca mais insaciável e, como se costuma dizer, é quando corremos por gosto e nunca, ou quase nunca, nos cansamos. Independentemente das escolhas que façamos, o Homem demonstra uma capacidade imensa de retirar da mais estranha das situações um prazer inigualável que o leva a alcançar esse bem tão preciso de que falo. Há quem goste do ar, há quem goste da água, há quem goste do fogo e há até quem goste da terra. Há tanta gente que gosta de tanta coisa. A nossa pequenez como indivíduos ofusca a grandeza que demonstramos como sociedade. Porque é que temos de nos amarrar a vontades, a estereótipos, pressões ou mesmo a financiamentos externos para tentarmos ser felizes?
A busca da felicidade é, na realidade, o maior de todos os nossos objectivos, ou melhor, todos os outros objectivos são um meio para chegar à felicidade. E é isso que queremos, de uma maneira ou de outra. Não há real e puro altruísmo no seu sentido comummente utilizado. O problema é que a busca da felicidade é, na sociedade que nos rodeia, um percurso feito de fora para dentro. Na realidade temos é de fazer um caminho de dentro para fora.
Não devemos deixar que o Mundo nos diga o que fazer para sermos felizes. Temos de dizer ao Mundo o que queremos fazer, para que nele possamos ser felizes.


"Claro que sim filho. Se realmente queres, é o que serás!"

quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

Futuro

As conversas que me orgulho de ter com (quase) todos os seres humanos com quem me tenho cruzado nesta viagem têm, de facto, sido fundamentais para me enriquecer como pessoa e para me mostrar novas perspectivas do Mundo. A minha infantil, ou não, necessidade de acreditar que conseguimos criar uma sociedade melhor, mais igual e justa, torna-me quase num pequeno e inocente conversador perante os grandes conhecedores da política e sociologia mundial.
Penso, no entanto, que um pouco de crença, mesmo que pouco fundamentada, é particularmente importante para que possamos evoluir e crescer como seres, como cultura e até mesmo como raça. Já dizia António Gedeão que "Eles não sabem, nem sonham, que o sonho comanda a vida Que sempre que um homem sonha o mundo pula e avança". Há, penso eu, algo de especial importância nesta frase. É necessário sonhar, acreditar em algo, mesmo que nos pareça impossível, mesmo que olhemos para ela como algo intangível, temos de acreditar que, um dia, a conseguiremos alcançar.
Uma sociedade igualitária é, sem dúvida alguma, algo utópico neste momento por diversas razões, sendo que a principal parece-me o facto de que a nossa sociedade criou necessidades que, para serem satisfeitas, obrigam a que haja uma determinada quantidade de pessoas a ocupar cada posto de trabalho, no entanto, esta distribuição de pessoas pelos postos de trabalho não é igual à quantidade de pessoas que, na realidade, querem ocupar esse posto. Gera-se aqui, portanto, uma incompatibilidade entre a felicidade e realização de cada indivíduo e o bom funcionamento da sociedade. Não é, no entanto, o objectivo de cada sociedade melhorar, para que cada um dos seus indivíduos possa ter uma maior qualidade de vida? Assim, a resposta imediata daqueles que, e digo-o com sinceridade, são bastante conhecedores das politicas e sociedades actuais, prende-se com a incapacidade do ser humano lidar com o conforto. Isto é, se a sociedade proporcionar a cada um dos seus indivíduos uma vida confortável e sem risco, tornar-nos-íamos em seres preguiçosos, numa sociedade estagnada que nada mais teria como função neste Mundo, a não ser a função de Estar. Há aqui algo que me baralha. Eu compreendo perfeitamente este ponto de vista e sinto-me até intimidado por ele, no entanto, parece-me que podemos pegar nele através de outro ponto de vista. Pergunto-me se não há pessoas que, com todo o conforto e segurança do mundo, não se lançam à descoberta, ao estudo e à aprendizagem, sem qualquer necessidade de o fazer? Então porque não poderia isso acontecer com alguns dos elementos da tal sociedade utópica? Mais ainda, olhando para a sociedade que temos neste momento, na qual a maior parte dos seus indivíduos passa fome e não tem quaisquer condições de higiene ou segurança, seria assim tão descabido querer uma sociedade estagnada, mas justa e confortável? Aceitar que pararíamos de evoluir, mas que todos os que nascessem tivessem possibilidade de comer… Não me parece que esta última hipótese seja a melhor, até porque eu próprio não me identifico com ela, mas, para alguém que nasce hoje e não tem mais do que meio como de água para beber a cada dois dias, será uma possibilidade tão descabida assim?
Fundamentalmente, o que quero defender é que, mesmo que hoje nos pareça completamente impossível uma sociedade justa e confortável para cada um dos seus indivíduos, porquê colocar essa hipótese de lado? Quantas coisas não eram impossíveis no passado e são adquiridas hoje em dia, a electricidade, a internet, a Terra redonda, entre outras. Mais ainda, temos exemplos de pequenas comunidades que conseguem viver partilhando por todos os seus membros as riquezas que recolhem da natureza. É, então, assim tão impossível imaginar um mundo melhor? Como dizia John Lennon, “Um sonho que sonhas sozinho, é apenas um sonho. Um sonho que sonhamos juntos é a realidade”.
A compreensão do Mundo é algo que procuramos desde sempre. Enquanto nos agarrarmos ao possível e alcançável, o Mundo continuará a ser uma incógnita. O que nos parece impossível hoje, poderá ser o adquirido amanhã, basta-nos acreditar.